Por que tantas empresas evitam captar recursos de terceiros?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Pedro Daniel Magalhães

Um dado recente ajuda a entender por que Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, vem chamando atenção para esse tema: um levantamento com quase trezentas empresas brasileiras mostrou que quase sete em cada dez companhias se financiam exclusivamente com capital próprio, sem recorrer a nenhuma linha de crédito ou instrumento de captação de terceiros. À primeira vista, isso pode parecer prudência financeira. Na prática, muitas vezes reflete desconhecimento sobre as alternativas disponíveis, o que limita o ritmo de crescimento de negócios que poderiam se expandir mais rápido com uma estrutura de capital melhor planejada. Entender por que essa escolha acontece e quando ela deixa de fazer sentido ajuda o empresário a tomar uma decisão mais consciente. 

Por que o capital próprio domina?

A preferência pelo capital próprio costuma vir de um motivo simples: é a fonte de recursos que a empresa já conhece e controla, sem depender de aprovação de terceiros nem de garantias formais. Sendo assim, Pedro Daniel Magalhães alude que reinvestir lucro ou receber aporte dos próprios sócios não gera obrigação de pagamento fixo, o que reduz a sensação de risco no curto prazo.

O problema é que essa mesma característica, que traz segurança, também impõe um limite claro de crescimento. Uma empresa que só cresce na velocidade do lucro que consegue reter fica, por definição, mais lenta do que uma concorrente disposta a alavancar operações com capital de terceiros bem estruturado.

Quando a dívida deixa de ser risco e vira ferramenta

O segundo passo do raciocínio é entender que dívida e risco financeiro não são sinônimos automáticos. Uma dívida bem dimensionada, com prazo compatível com o retorno do investimento que ela financia, funciona como alavanca de crescimento. O problema não é o endividamento em si, mas o descompasso entre o custo da dívida e a capacidade de geração de caixa da empresa.

Empresas do setor industrial, segundo o mesmo levantamento, são as que mais sentem esse custo, com parcela relevante pagando taxas de juros anuais acima de dois dígitos. Nesses casos, a decisão de captar dívida exige análise mais criteriosa, considerando não apenas a taxa nominal, mas o spread cobrado pela instituição financeira e o prazo real de retorno do investimento.

Olhar para o mercado de capitais

Além do crédito bancário tradicional, o mercado de capitais brasileiro tem se consolidado como alternativa permanente de financiamento, não apenas como recurso emergencial quando o crédito bancário aperta. As ofertas via mercado de capitais somaram valor expressivo nos primeiros meses recentes, com alta de dois dígitos sobre o mesmo período do ano anterior, refletindo justamente essa mudança de comportamento entre empresas mais estruturadas.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Pedro Magalhães aponta que esse movimento não representa substituição ao crédito bancário, e sim uma redução relativa da dependência de uma única fonte. Instrumentos como debêntures, notas comerciais e fundos estruturados passaram a compor a estratégia de passivos de empresas que antes recorriam quase exclusivamente ao banco.

Avaliar o custo de oportunidade do capital próprio

Um erro comum é tratar o capital próprio como recurso “gratuito” só porque não gera juros explícitos. Na realidade, todo capital tem custo de oportunidade: o dinheiro que o sócio investe na empresa deixa de estar disponível para outras aplicações. Quando esse custo de oportunidade é ignorado, decisões de investimento podem parecer mais baratas do que realmente são.

Colocar lado a lado o custo da dívida, incluindo o benefício fiscal que os juros costumam gerar sobre o cálculo de impostos, e o custo de oportunidade do capital próprio é o exercício que Pedro Daniel Magalhães considera mais revelador para quem está decidindo como financiar a próxima fase de crescimento. Em boa parte dos casos, uma combinação equilibrada entre as duas fontes gera resultado melhor do que a dependência exclusiva de qualquer uma delas.

O passo final: estrutura antes da urgência

A decisão sobre como captar recursos não deveria ser tomada sob pressão, no meio de uma necessidade emergencial de caixa. Empresas que planejam sua estrutura de capital com antecedência, avaliando diferentes fontes antes de precisar delas, negociam em condições muito mais favoráveis do que aquelas que buscam crédito apenas quando o caixa já está apertado.

Mapear o perfil da empresa, seu ciclo de caixa e sua tolerância a risco antes de escolher entre dívida, capital próprio ou instrumentos híbridos é o que separa uma decisão financeira estratégica de uma reação de curto prazo. Entender essas alternativas com antecedência é o primeiro passo antes de qualquer decisão sobre como financiar a próxima fase de crescimento de um negócio.

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