O Pix completou seis anos de operação em 2026 consolidado como o principal meio de pagamento do Brasil: mais de 170 milhões de brasileiros o utilizam, o que representa cerca de 80% da população, segundo dados do Senado Verifica. Só em 2025, o sistema movimentou mais de R$ 28 trilhões, conforme informações do Banco Central obtidas pelo Fincatch. Mas esse mesmo sucesso transformou o Pix no principal alvo do crime financeiro digital no país: entre janeiro e setembro de 2025, foram registradas aproximadamente 28 milhões de fraudes envolvendo o sistema, com pessoas acima de 50 anos representando 53% dos casos, segundo relatório da Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor (ADDP) citado pela Security Leaders.
O tamanho do problema motivou o Banco Central a atualizar as regras de segurança do sistema em fevereiro deste ano. A principal mudança foi a versão 2.0 do Mecanismo Especial de Devolução, o MED, que passa a ser obrigatório para todas as instituições financeiras que operam o Pix. Com a atualização, o sistema rastreia o caminho do dinheiro mesmo quando os valores são rapidamente transferidos para contas intermediárias, prática comum em crimes financeiros. A expectativa do Banco Central é que as mudanças possam diminuir em até 40% os golpes bem-sucedidos, segundo a Agência Brasil. Outra novidade é o bloqueio automático de valores suspeitos por até 11 dias enquanto a análise da fraude é conduzida.
Como os golpes evoluíram com a inteligência artificial
O que mais preocupa especialistas em segurança digital não é o volume de golpes, mas a sofisticação crescente das abordagens. A empresa de cibersegurança ESET alertou que em 2026 os criminosos passaram a usar inteligência artificial generativa para personalizar as mensagens fraudulentas com nome, cidade e histórico da vítima, tornando o convencimento mais rápido e preciso. Deepfakes com imagens e vídeos de autoridades públicas anunciando supostas mudanças no Pix também circulam nas redes sociais e tendem a se tornar cada vez mais realistas. Um levantamento do Observatório Lupa divulgado em 17 de junho identificou ao menos 115 conteúdos fraudulentos viralizados no Brasil entre maio de 2024 e abril de 2026, com o WhatsApp aparecendo em quase 65% dos casos analisados entre maio de 2025 e abril de 2026 como principal canal de circulação.
Entre os golpes mais comuns estão a falsa central de atendimento, em que criminosos se passam por funcionários de bancos para convencer a vítima a transferir dinheiro; o golpe do Pix errado, em que o fraudador envia um valor para a vítima e pede a devolução para depois acionar o MED alegando fraude; as falsas vagas de emprego, que exigem uma taxa simbólica via Pix; e as lojas online fraudulentas. Segundo o mesmo levantamento do Observatório Lupa, 71% dos golpes analisados entre 2025 e 2026 prometiam algum tipo de vantagem financeira, como benefícios sociais ou recompensas em dinheiro, combinando urgência emocional com uso de marcas conhecidas.
O que fazer se cair num golpe pelo Pix
Quem for vítima de fraude deve agir com rapidez. O primeiro passo é acionar imediatamente a instituição financeira pelo aplicativo ou pelos canais oficiais, solicitando o acionamento do MED. Em seguida, é fundamental registrar um Boletim de Ocorrência, que serve de prova no processo administrativo bancário. Se a solução não for alcançada pelo banco, o Banco Central pode ser contactado pelo número 145, disponível de segunda a sexta das 8h às 18h, ou pelo portal Fale Conosco do BC. O Senado Federal analisa o PL 133/2022, chamado de Lei de Segurança do Pix, que propõe alterar o Código de Defesa do Consumidor para garantir ressarcimento mais rápido às vítimas de crimes patrimoniais. Outra proposta em tramitação, o PL 4.489/2025, prevê punições severas para quem usar mensagens atreladas a transferências bancárias como ferramenta de assédio ou intimidação sistemática.
Para se proteger no dia a dia, o Banco Central orienta verificar sempre o nome e os dados do destinatário antes de confirmar qualquer transferência, nunca compartilhar senhas ou códigos de verificação, evitar clicar em links recebidos por mensagem e ativar notificações no aplicativo bancário para monitorar movimentações suspeitas. Reduzir os limites diários e noturnos do Pix de acordo com o padrão de uso pessoal é outra medida eficiente, pois limita o prejuízo máximo em caso de fraude. A combinação de medidas tecnológicas do Banco Central com educação financeira dos usuários é o que especialistas apontam como o caminho mais eficaz para reduzir as fraudes num sistema que, pela sua natureza instantânea, torna quase impossível reverter transferências depois de realizadas.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez